Diferença entre Surdocegueira e
Deficiência Múltipla
Para
Mclnnes (1999) a surdo cegueira é uma deficiência única, ou seja , embora possua duas deficiências associadas - a surdez
e a cegueira - não se trata da somatória de ambas mas uma deficiência única que
apresenta características peculiares como graves perdas auditivas e visuais, e
que a combinação das duas impossibilita o uso dos sentidos de distância,
cria necessidades especiais de comunicação, causa extrema dificuldade na
conquista de metas educacionais, vocacionais, recreativas, sociais, para
acessar informações e compreender o mundo que o cerca , levando quem a possui,
a ter formas específicas de comunicação,
podendo ser congênita ou adquirida. E que requer uma abordagem específica e um
sistema que favoreça a pessoa surdocega.
O mesmo autor subdivide as pessoas com surdocegueira em quatro categorias:
. Indivíduos que eram cegos
e se tornaram surdos;
Indivíduos que eram surdos e se tornaram
cegos;
. Indivíduos que se tornaram
surdocegos;
. Indivíduos que nasceram ou adquiriram surdo cegueira
precocemente ,ou seja, não tiveram a oportunidade de desenvolver linguagem , habilidades
comunicativas ou cognitivas nem base
conceitual sobre a qual possam construir uma compreensão do mundo. Quase sempre, os canais de visão e audição não são os únicos afetados,
mas também outros sistemas, como os sistemas tátil (toque), vestibular (equilíbrio),
proprioceptivo (posição corporal), olfativo (aromas e odores) ou gustativo
(sabor).
A criança surdocega não é
uma criança surda que não pode ver e nem um cego que não pode ouvir. Não se
trata de simples somatória de surdez e cegueira, nem é só um problema de
comunicação e percepção, ainda que englobe todos esses fatores e alguns mais
(McInnes & Treffy, 1991).
Segundo
Telford & Sawrey (1976), quando a visão e audição estão gravemente comprometidas,
os problemas relacionados à aprendizagem dos comportamentos socialmente aceitos
e a adaptação ao meio se multiplicam. Por essa razão é tão importante o
acompanhamento desde cedo e intervenções específicas que possibilitem o
desenvolvimento das potencialidades e formas de comunicação das pessoas surdocegas.
. São consideradas pessoas com
deficiência múltipla aquelas que tem mais de uma deficiência associada . É uma
condição heterogênea que identifica diferentes grupos de pessoas, revelando
associações diversas de deficiências que afetam, mais ou menos intensamente, o
funcionamento individual e o relacionamento social. (MEC\SEESP, 2002).
Segundo Orelove e Sobsey (2000) as pessoas com deficiência múltipla são
indivíduos com comprometimentos acentuados no domínio cognitivo, associados a
comprometimentos no domínio motor ou no domínio sensorial (visão ou audição) e
que requerem apoio permanente, podendo ainda necessitar de cuidados de saúde
específicos. São indivíduos que possuem características específicas, individuais,
singulares e não apresentam necessariamente os mesmos tipos de deficiência,
podem apresentar cegueira e deficiência mental; deficiência auditiva e deficiência
mental; deficiência auditiva e autismo e outros. De acordo com Bosco (2010) o
corpo é a realidade mais imediata do ser humano. Portanto favorecer o
desenvolvimento do esquema corporal da pessoa com surda cegueira ou deficiência
múltipla é de extrema importância. Para que a pessoa possa se auto perceber e perceber
o mundo exterior devemos buscar sua verticalidade, o equilíbrio postural , a
articulação e a harmonização de seus movimentos ,a autonomia em deslocamentos e
movimentos ,o aperfeiçoamento das coordenações viso motora, motora global e
fina e o desenvolvimento da força muscular, o que poderá favorecer o
desenvolvimento de um sistema estruturado de comunicação. Nunes (2000), “o
processo comunicativo envolve recepção da informação e perspectiva compreensão
da mensagem. Desde muito cedo, a criança começa a perceber o que é a fala e que
os diferentes tons de voz, as expressões faciais, os gestos e os toques,
pretendem dizer-lhe algo, ou seja, que esses comportamentos têm significados”.
No entanto, para a criança surdocega ou
com deficiência múltipla é importante considerar cuidadosamente as formas de
como transmitir a informação e como lhe será permitido que comece a antecipar o
que vai acontecer.
Ao se trabalhar com pessoas com surdocegueira ou pessoas com
deficiência múltipla é extremamente importante a colaboração da família bem
como dos profissionais de outros serviços no qual todos compartilhem
dos mesmos objetivos. A intervenção se torna mais rica e a
responsabilidade é partilhada por todos, assim a família não se sente isolada
nem atribui sucessos e fracassos somente
a escola. Deve-se trabalhar
num contexto de aprendizagem construtivista,
ecológico e responsivo.
Construtivo: Construído face a face, nas
interações entre diferentes atores e nas relações interpessoais entre eles; no
processo contínuo de forma partilhada; na construção contextual, dinâmica e
evolutiva.
Ecológico: Envolve
os contextos naturais nos quais a pessoa se encontra e os atores que com ela
interagem.
Responsiva: Dar tempo à pessoa para responder (pausar) o que aumenta as
oportunidades dela se comunicar e possibilita tomar a vez; usa a modelação como
estratégia, explica como se faz; usa a resolução conjunta de problemas.
Para que a comunicação
ocorra são necessários quatro elementos: o emissor ou locutor; o receptor; o
tópico; o meio de expressá-lo.
Comunicação alternativa e aumentativa
refere-se a sistemas usados para dar suporte às habilidades comunicativas do
indivíduo cuja fala esteja temporariamente ou permanentemente inadequada para
suprir as necessidades comunicativas do mesmo.
Estágios de comunicação
Pré - simbólico e Pré - intencional: trata-se da
comunicação num estágio de reflexo na qual a pessoa não está ciente de seu
próprio corpo e nem de que suas ações tem um efeito nas pessoas ou no meio.
Suas manifestações são interpretadas pelos outros como comunicativas e a
consistência nestas interpretações é que vão garantir que a pessoa avance para
o próximo estágio.
Pré - simbólico e Intencional: quando a pessoa
percebe que suas ações influenciam o meio e os outros. Mas sua intenção não é
de se comunicar com o outro, mas de que algo prazeroso aconteça ou volte a
acontecer. Ex: chorar, , fazer birra, apontar ,olhar, vocalizações, expressões
corporais e faciais .etc.
Simbólico: o primeiro
passo em direção ao simbolismo são os gestos de apontar. Quanto maior for o
distanciamento entre referente e referido maior o nível simbólico de
comunicação. Simbolismo é quando se começa a nomear as coisas. Nomear algo é
ter a capacidade de manter em mente a relação objeto real e o que o representa.
Ex: fala, língua de sinais, escrita Braille, etc.
Símbolos e gestos: Os gestos se
limitam ao aqui e agora podendo apenas se referir ao que está fisicamente
presente. Com símbolos é possível comunicar sobre coisas, lugares, pessoas e
conceitos que não estão fisicamente presentes.
A possibilidade de se comunicar
e ser ouvido, de ter a oportunidade de fazer escolhas dentro de uma rotina
previsível, com atividades sendo antecipadas por um meio de comunicação dentro
de suas possibilidades podem levar a pessoa a perceber que tem controle sobre
sua vida, nem que seja em uma pequena parte, o que é altamente motivante.
Recursos para a aprendizagem de alunos com
surdocegueira e deficiências múltiplas
Objetos de referência
Segundo Maia et al
( 2008), os objetos de referência são objetos que tem significados especiais
,os quais tem função de substituir a palavra e,
assim podem representar lugares
,pessoas ,objetos atividades ou conceitos associados a eles. Podem ser
utilizados diariamente em diferentes atividades, os quais são apresentados às
crianças como pistas, indicando o que vai acontecer a seguir ou o que ela irá
fazer. Quando a criança consegue
antecipar alguns acontecimentos por meio da apresentação de objetos de
referência, estes poderão começar a ser usados como um meio de antecipar as
ações num futuro imediato. Dessa forma, poderão ser colocados em um local
acessível à criança, construindo um sistema de rotina por meio do calendário
concreto. Podem ser objetos pessoais da criança, objetos de higiene objetos de
amigos, etc.
Calendário
Os calendários são
instrumentos que favorecem o desenvolvimento da noção de tempo e que ajudam os
alunos a estabelecer e compreender rotinas ,também são úteis no desenvolvimento
da comunicação ,no ensino de conceitos
temporais abstratos e na ampliação do vocabulário.
Para construir um sistema de
calendário, os objetos de referência relacionados às atividades são colocados sequencialmente
dentro de caixas ou em uma prateleira com divisórias, pela ordem em que as
atividades diárias se realizarão. Esse calendário funcionará para a criança
como a agenda para o adulto.
Esse sistema permite à
criança saber, em qualquer momento do dia, o que já aconteceu, bem como poderá
prever o que irá acontecer. A elaboração do calendário exige planejamento e uma
avaliação sistemática, sendo necessário tomar algumas decisões relativas a sua
organização. Entre elas, faz-se necessário definir:
1- quais atividades serão selecionadas para figurar no calendário;
2 - qual a funcionalidade dos objetos de referência que estão sendo
utilizados, e
3 - quais os interesses e motivações da criança, bem como seu nível de
desenvolvimento.
.Caixa de antecipação
As caixas
de antecipação devem ser utilizadas com crianças que ainda não tem nenhum
sistema de comunicação . Permite conhecer os primeiros objetos de referência
que anteciparão as atividades e o conhecimento das primeiras palavras.
“Nós não devemos deixar que as incapacidades das pessoas nos
impossibilitem de reconhecer as suas habilidades” ( Hallahan e Kauffman, 1994)
Referências:
IKONOMIDIS, Vula Maria. Apostila sobre deficiência múltipla sensorial, 2010.
BOSCO,
Ismênia C. M. G.; MESQUITA, Sandra R. S. H.; Shirley R. Coletânea UFC-MEC/2010:
A Educação Especial na Perspectiva da
Inclusão Escolar – Fascículo 05: Surdocegueira e Deficiência Múltipla
(2010).
NASCIMENTO, Fátima Ali
Abdalah Abdel Cader. Educação Infantil ; saberes e práticas da inclusão
: dificuldades de comunicação e sinalização : surdocegueira/múltipla
deficiência sensorial. 4. ed.
Universidade Federal de São Carlos – UFSC/SP, Brasília : MEC, Secretaria
de Educação Especial, 2006.