sábado, 10 de maio de 2014

Diferença entre Surdocegueira e Deficiência Múltipla


Diferença entre Surdocegueira e Deficiência Múltipla

                Para Mclnnes (1999) a surdo cegueira é uma deficiência única, ou seja , embora   possua duas deficiências associadas - a surdez e a cegueira - não se trata da somatória de ambas mas uma deficiência única que apresenta características peculiares como graves perdas auditivas e visuais, e que  a combinação das duas  impossibilita o uso dos sentidos de distância, cria necessidades especiais de comunicação, causa extrema dificuldade na conquista de metas educacionais, vocacionais, recreativas, sociais, para acessar informações e compreender o mundo que o cerca , levando quem a possui, a  ter formas específicas de comunicação, podendo ser congênita ou adquirida. E que requer uma abordagem específica e um sistema que favoreça a pessoa surdocega.    O mesmo autor subdivide as pessoas com surdocegueira em quatro categorias:

. Indivíduos que eram cegos e se tornaram surdos;

 Indivíduos que eram surdos e se tornaram cegos;

. Indivíduos que se tornaram surdocegos;

.  Indivíduos que nasceram ou adquiriram surdo cegueira precocemente ,ou seja, não tiveram a oportunidade de desenvolver linguagem , habilidades comunicativas  ou cognitivas nem base conceitual sobre a qual possam construir uma compreensão do mundo. Quase sempre, os canais de visão e audição não são os únicos afetados, mas também outros sistemas, como os sistemas tátil (toque), vestibular (equilíbrio), proprioceptivo (posição corporal), olfativo (aromas e odores) ou gustativo (sabor).

                 A criança surdocega não é uma criança surda que não pode ver e nem um cego que não pode ouvir. Não se trata de simples somatória de surdez e cegueira, nem é só um problema de comunicação e percepção, ainda que englobe todos esses fatores e alguns mais (McInnes & Treffy, 1991).

                    Segundo Telford & Sawrey (1976), quando a visão e audição estão gravemente comprometidas, os problemas relacionados à aprendizagem dos comportamentos socialmente aceitos e a adaptação ao meio se multiplicam. Por essa razão é tão importante o acompanhamento desde cedo e intervenções específicas que possibilitem o desenvolvimento das potencialidades e formas de comunicação das  pessoas surdocegas.

.               São consideradas pessoas com deficiência múltipla aquelas que tem mais de uma deficiência associada . É uma condição heterogênea que identifica diferentes grupos de pessoas, revelando associações diversas de deficiências que afetam, mais ou menos intensamente, o funcionamento individual e o relacionamento social. (MEC\SEESP, 2002).                                                                                                                    

              Segundo Orelove e Sobsey (2000) as pessoas com deficiência múltipla são indivíduos com comprometimentos acentuados no domínio cognitivo, associados a comprometimentos no domínio motor ou no domínio sensorial (visão ou audição) e que requerem apoio permanente, podendo ainda necessitar de cuidados de saúde específicos. São indivíduos que possuem características específicas, individuais, singulares e não apresentam necessariamente os mesmos tipos de deficiência, podem apresentar cegueira e deficiência mental; deficiência auditiva e deficiência mental; deficiência auditiva e autismo e outros. De acordo com Bosco (2010) o corpo é a realidade mais imediata do ser humano. Portanto favorecer o desenvolvimento do esquema corporal da pessoa com surda cegueira ou deficiência múltipla é de extrema importância. Para que a pessoa possa se auto perceber e perceber o mundo exterior devemos buscar sua verticalidade, o equilíbrio postural , a articulação e a harmonização de seus movimentos ,a autonomia em deslocamentos e movimentos ,o aperfeiçoamento  das  coordenações viso motora, motora global e fina e o desenvolvimento da força muscular, o que poderá favorecer o desenvolvimento de um sistema estruturado de comunicação. Nunes (2000), “o processo comunicativo envolve recepção da informação e perspectiva compreensão da mensagem. Desde muito cedo, a criança começa a perceber o que é a fala e que os diferentes tons de voz, as expressões faciais, os gestos e os toques, pretendem dizer-lhe algo, ou seja, que esses comportamentos têm significados”. No entanto, para a criança surdocega  ou com deficiência múltipla é importante considerar cuidadosamente as formas de como transmitir a informação e como lhe será permitido que comece a antecipar o que vai acontecer.                                                                                                                         

                 Ao se trabalhar com pessoas com surdocegueira ou pessoas com deficiência múltipla é extremamente importante a colaboração da família bem como dos profissionais de outros serviços no qual todos  compartilhem  dos mesmos objetivos. A intervenção se torna mais rica e a responsabilidade é partilhada por todos, assim a família não se sente isolada nem atribui sucessos e fracassos somente  a escola.                            Deve-se trabalhar num contexto de aprendizagem construtivista, ecológico e responsivo.                                                                                                         Construtivo: Construído face a face, nas interações entre diferentes atores e nas relações interpessoais entre eles; no processo contínuo de forma partilhada; na construção contextual, dinâmica e evolutiva.                                                                Ecológico: Envolve os contextos naturais nos quais a pessoa se encontra e os atores que com ela interagem.

Responsiva: Dar tempo à pessoa para responder (pausar) o que aumenta as oportunidades dela se comunicar e possibilita tomar a vez; usa a modelação como estratégia, explica como se faz; usa a resolução conjunta de problemas.  

                   Para que a comunicação ocorra são necessários quatro elementos: o emissor ou locutor; o receptor; o tópico; o meio de expressá-lo.

Comunicação alternativa e aumentativa refere-se a sistemas usados para dar suporte às habilidades comunicativas do indivíduo cuja fala esteja temporariamente ou permanentemente inadequada para suprir as necessidades comunicativas do mesmo.

Estágios de comunicação

Pré - simbólico e Pré - intencional: trata-se da comunicação num estágio de reflexo na qual a pessoa não está ciente de seu próprio corpo e nem de que suas ações tem um efeito nas pessoas ou no meio. Suas manifestações são interpretadas pelos outros como comunicativas e a consistência nestas interpretações é que vão garantir que a pessoa avance para o próximo estágio.

Pré - simbólico e Intencional: quando a pessoa percebe que suas ações influenciam o meio e os outros. Mas sua intenção não é de se comunicar com o outro, mas de que algo prazeroso aconteça ou volte a acontecer. Ex: chorar, , fazer birra, apontar ,olhar, vocalizações, expressões corporais e faciais .etc.

Simbólico: o primeiro passo em direção ao simbolismo são os gestos de apontar. Quanto maior for o distanciamento entre referente e referido maior o nível simbólico de comunicação. Simbolismo é quando se começa a nomear as coisas. Nomear algo é ter a capacidade de manter em mente a relação objeto real e o que o representa.

Ex: fala, língua de sinais, escrita Braille, etc.

Símbolos e gestos: Os gestos se limitam ao aqui e agora podendo apenas se referir ao que está fisicamente presente. Com símbolos é possível comunicar sobre coisas, lugares, pessoas e conceitos que não estão fisicamente presentes.

                A possibilidade de se comunicar e ser ouvido, de ter a oportunidade de fazer escolhas dentro de uma rotina previsível, com atividades sendo antecipadas por um meio de comunicação dentro de suas possibilidades podem levar a pessoa a perceber que tem controle sobre sua vida, nem que seja em uma pequena parte, o que é altamente motivante.

 

                     Recursos para a aprendizagem de alunos com surdocegueira e deficiências múltiplas

  Objetos de referência

                Segundo Maia et al ( 2008), os objetos de referência são objetos que tem significados especiais ,os quais tem função de substituir a palavra e,  assim  podem representar lugares ,pessoas ,objetos atividades ou conceitos associados a eles. Podem ser utilizados diariamente em diferentes atividades, os quais são apresentados às crianças como pistas, indicando o que vai acontecer a seguir ou o que ela irá fazer.  Quando a criança consegue antecipar alguns acontecimentos por meio da apresentação de objetos de referência, estes poderão começar a ser usados como um meio de antecipar as ações num futuro imediato. Dessa forma, poderão ser colocados em um local acessível à criança, construindo um sistema de rotina por meio do calendário concreto. Podem ser objetos pessoais da criança, objetos de higiene objetos de amigos, etc.

Calendário

                 Os calendários são instrumentos que favorecem o desenvolvimento da noção de tempo e que ajudam os alunos a estabelecer e compreender rotinas ,também são úteis no desenvolvimento da comunicação ,no ensino de conceitos  temporais abstratos e na ampliação do vocabulário.

                   Para construir um sistema de calendário, os objetos de referência relacionados às atividades são colocados sequencialmente dentro de caixas ou em uma prateleira com divisórias, pela ordem em que as atividades diárias se realizarão. Esse calendário funcionará para a criança como a agenda para o adulto.

                     Esse sistema permite à criança saber, em qualquer momento do dia, o que já aconteceu, bem como poderá prever o que irá acontecer. A elaboração do calendário exige planejamento e uma avaliação sistemática, sendo necessário tomar algumas decisões relativas a sua organização. Entre elas, faz-se necessário definir:

1- quais atividades serão selecionadas para figurar no calendário;

2 - qual a funcionalidade dos objetos de referência que estão sendo utilizados, e

3 - quais os interesses e motivações da criança, bem como seu nível de desenvolvimento.

.Caixa de antecipação

                         As caixas de antecipação devem ser utilizadas com crianças que ainda não tem nenhum sistema de comunicação . Permite conhecer os primeiros objetos de referência que anteciparão as atividades e o conhecimento das primeiras palavras.    

 

                “Nós não devemos deixar que as incapacidades das pessoas nos impossibilitem de reconhecer as suas habilidades” ( Hallahan e Kauffman, 1994)

 

Referências:

 

IKONOMIDIS, Vula Maria. Apostila sobre deficiência múltipla sensorial, 2010.

BOSCO, Ismênia C. M. G.; MESQUITA, Sandra R. S. H.; Shirley R. Coletânea UFC-MEC/2010: A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar – Fascículo 05: Surdocegueira e Deficiência Múltipla (2010).

NASCIMENTO, Fátima Ali Abdalah Abdel Cader. Educação Infantil ; saberes e práticas da inclusão : dificuldades de comunicação e sinalização : surdocegueira/múltipla deficiência sensorial. 4. ed.  Universidade Federal de São Carlos – UFSC/SP, Brasília : MEC, Secretaria de Educação Especial, 2006.

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